28 março, 2012

Bebê morre após esperar 5 dias por UTI

LIGIA COELI E DANIEL MOTTA

Campina Grande – Por conta da falta de UTI neonatal nos hospitais públicos do Sertão do Estado e da falta de vagas em hospitais de Campina Grande e João Pessoa, dois bebês gêmeos prematuros, nascidos em situação de risco, tiveram que aguardar cinco dias até serem transferidos para o Hospital Universitário Alcides Carneiro (HUAC). Uma das crianças acabou morrendo dois dias após conseguir uma vaga no HU, em Campina. Visivelmente abalada, a mãe dos bebês, a dona de casa Graciele de Oliveira Melo, disse que a equipe médica do HUAC informou que a morte do seu bebê foi provocada por uma infecção generalizada, e que a demora no atendimento pode ter agravado a saúde dele. A infecção teria sido contraída na Maternidade Peregrino Filho, em Patos, durante os dias em que esteve internado. O outro bebê permanece internado em Campina Grande, com infecção generalizada e meningite. A Promotoria da Infância e Juventude vai acompanhar o caso.
Na maternidade Peregrino Filho, onde os bebês nasceram, são feitos mensalmente 300 partos. O local, que também atende pacientes de Pernambuco e do Ceará, não conta com uma UTI neonatal e a diretoria técnica afirma que há casos em que bebês esperam até 10 dias por uma vaga na UTI. A mãe dos gêmeos, Graciele Melo, deu entrada na maternidade sertaneja no último dia 4, apresentando complicações no quadro clínico. “A paciente chegou por volta das 20h30, com bolsa ‘rota’, e de imediato foi levada para a sala de parto. Os bebês nasceram com deficiência respiratória e sinais de infecção. Ela já chegou com um quadro de sofrimento fetal, e por isso descaracteriza suspeita de infecção hospitalar”, explicou o diretor técnico da maternidade de Patos, Paulo Sérgio Franca de Ataíde.
Segundo Graciele, os exames feitos durante a sua gestação apontavam uma gravidez sadia, sem complicações, mas na maternidade Peregrino Filho, a equipe médica alegou que as crianças teriam nascido com problemas respiratórios. No entanto, a dona de casa revelou que durante os dias em que ficou na maternidade, não presenciou nenhum procedimento higiênico nos bebês e que isso pode ter sido o motivo da infecção. “Eu não vi ninguém dar nem mesmo banho nos bebês, e os médicos daqui do HUAC disseram que as crianças haviam contraído infecção. Só pode ter sido na maternidade de Patos. O médico disse que a infecção pode ter sido gerada a partir da aplicação de um cateter no cordão umbilical”, revelou a mãe.
Graciele lamenta não poder acompanhar o enterro do bebê. “Estava aqui em Campina com os dois, aí um morreu e eu fiquei desesperada. Meu marido levou o corpo para enterrar em Patos e eu sequer tive a chance de dar um último adeus, porque fiquei cuidando do outro aqui na UTI. Estou há 22 dias dentro de hospital. Já perdi um e corro o risco de perder o outro”, desabafou, muito abalada.
A diretoria técnica da maternidade só conseguiu realizar a transferência dos bebês cinco dias após o parto. Durante esse tempo de espera, “eles ficaram no berçário patológico da maternidade, junto com outros bebês de alto risco”, disse o diretor. Os bebês foram trazidos para o HUAC, em Campina Grande, após a confirmação das vagas. Eles foram internados na UTI, apesar disso, uma das crianças morreu no dia 11 de março. O bebê sobrevivente permanece internado em Campina e a mãe acompanha a criança. “Os bebês eram prematuros, tinham 37 semanas. O maior problema é que eles já vinham com sofrimento fetal”, disse. O diretor técnico confirmou que será realizada uma sindicância para investigar a suspeita de infecção nas crianças, além da causa da morte de uma delas.

Sem equipamentos na maternidade de Patos
A diretoria técnica da maternidade Peregrino Filho, em Patos,  informou que no local, além da ausência de UTI neonatal, faltam equipamentos. “Aqui não temos como usar o aparelho para ventilar a respiração da criança. Temos o aparelho, mas não temos o sistema de oxigenação”, disse Paulo Sérgio Franca de Ataíde. O local realiza até 12 partos por dia.

MP vai apurar
Embora o Ministério Público ainda não tenha recebido uma denúncia formal da família dos bebês, o promotor da infância de Patos, Newton Carneiro Vilhena, garantiu que irá hoje à Maternidade Peregrino Filho em busca de informações sobre o caso. Ele disse que não irá esperar a família oficializar a denúncia. “Diante do que fiquei sabendo através da reportagem do Jornal Correio, vou me antecipar”, afirmou o promotor. O promotor de Campina, Hebert Targino, também se pronunciará sobre o caso. “Daremos acompanhamento também ao caso”, disse Targino.

Outros casos
No último dia 18, um recém-nascido foi transportado de helicóptero de Patos, para um hospital de João Pessoa. De acordo com a direção da Maternidade Peregrino Filho, a remoção foi necessária devido a complicações respiratórias sofridas pelo bebê ainda na sala de parto.
A operação de transferência foi realizada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em parceria com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a  Secretária Estadual de Saúde e a Força Nacional.

Maternidades devem emitir relatório
Campina Grande – Após as mortes de três bebês registradas no Instituto Elpídio de Almeida (Isea), no período de duas semanas, o Ministério Público de Campina Grande determinou que todos os centros médicos do município com maternidades, passem a emitir às pacientes, na alta médica, um relatório de intercorrência de parto. No documento deverá constar os procedimentos e até mesmo os medicamentos utilizados durante o trabalho de parto e pós-parto. As pacientes que não receberem o documento poderão apresentar denúncia junto ao MP.
Em todo o Estado, todos os dias, mais de dois bebês morrem antes de completar um ano de vida. Nos últimos 10 anos, esse número ultrapassou os 12,4 mil casos, de acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba (SES). Segundo o promotor da saúde, Herbert Targino, a emissão dos relatórios de intercorrência facilitará a investigação em casos de morte. “Nesse documento deve ser especificado tudo, se a paciente teve complicações no parto, como uma parada cardíaca, por exemplo. Com essa declaração, a cidadania dela será exercida. Em caso de morte de uma criança, a mãe poderá ter subsídios cidadãos para solicitar a investigação do caso. É a defesa da mulher gestante e do bebê, diante de um caso de negligência médica”, disse.
Na alta médica, a paciente deverá receber a declaração de nascimento, onde constem as intercorrências do parto. “O dirigente do estabelecimento que descumprir essa lei, caso seja autuado, poderá responder a inquérito policial”, informou o promotor da Saúde.  Segundo ele, a medida deve ser adotada de forma imediata. Entre os centros médicos de Campina Grande que deverão emitir esse laudo estão a Clipsi, a Fundação Assistencial da Paraíba (FAP), o Hospital Pedro I e a maternidade ISEA. “A Lei federal 8069/90, artigo 228, obriga que a mãe tenha a declaração de intercorrências durante o parto e o fornecimento dessa declaração deve acontecer de forma imediata. Caso as mães não recebam, podem realizar a denúncia ao MP”, informou.
Hebert Targino chamou atenção para o fato de que  hospitais e maternidades devem ter uma comissão de acompanhamento de óbitos. “É importante que haja essa comissão, para que mães não saiam dos centros médicos sem saber o que que aconteceu antes, durante e após o parto”, disse.

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